segunda-feira, 8 de março de 2010
Glossário_Assessoria_02
Glossário de Assessoria de Comunicação:
Mailing Seletivo = Relação das informações sobre um espectro segmentado dos veículos de Comunicação que interessam a uma assessoria de imprensa. Deriva do paulatino movimento de especialização da mídia. O antigo mailing list, de caráter abrangente, dá lugar a uma seleção na qual são identificadas as instâncias decisórias da cobertura de cada núcleo temático do Jornalismo: Economia, Cultura, Política, etc.
Máster of Business Communication (MBC) = Modalidade de Pós-graduação em Comunicação Empresarial, cada vez mais comum entre as possibilidades de treinamento oferecidas a quem trabalha em assessorias de Imprensa e Comunicação. O MBC, normalmente, é realizado em 360 horas/aula, com apresentação de monografia final. Os conteúdos são abrangentes e percorrem uma gama de assuntos correlatos: Teoria da Comunicação, Redação Empresarial, Comunicação Digital, o Poder nas Organizações, entre outros.
Mídia Training = Atualmente, o termo designa cursos encomendados pelas assessorias de Comunicação, com o objetivo de otimizar o contato com as fontes da empresa com a mídia. Contempla “sabatinas”, laboratórios diversos e palestras conceituais, que municiam as fontes com dicas e conhecimentos básicos para o relacionamento com a mídia.
Newsmaking = Corrente teórica, de caráter sociológico, fortalecida na década de 70, que aquilata a importância da cultura profissional dos jornalistas, da organização do trabalho e dos processos produtivos das rotinas produtivas na formação da agenda jornalística (WOLF: 1995, p.169).
Newspeg = “Gancho” que atualiza informação, permitindo que ela se torne notícia (GRAÇA CALDAS: 2003)
Notícia = Relatos de acontecimentos que organizam, reorganizam ou desorganizam a realidade (GRAÇA MONTEIRP: 2003)
Noticiabilidade = Conforme Wolf (1995, p.170), trata-se de um conjunto de requisitos relativos aos acontecimentos – do ponto de vista das rotinas de produção e da ideologia profissional dos jornalistas – que lhes conferem as características básicas de uma notícia. Um evento insólito, inédito, já conta com atributos poderosos para que seja conduzido às páginas dos jornais.
Notícias Virtuais/ Webjornalismo = Conteúdo dos sites de notícias. Textos curtos, possibilidades quase infinitas em pesquisas em bancos de dados e links relacionados. No cotidiano das assessoria de Imprensa, representa, significativamente, ampliação do meio e demandas por informações de última hora. Normalmente, há intensa migração de conteúdo de um site para outro.
Papagaio de Pirata = Pessoas que aproveitam o assédio da imprensa a uma autoridade ou personagem, para também aparecer nas fotos ou nas imagens. São os chamados “Papagaios de Pirata”, porque, normalmente, colocam a cabeça à altura dos ombros da personagem central. São um problema para os editores, uma vez que podem prejudicar a plasticidade da imagem.
Passivo de imagem = Prejuízo acarretado para a credibilidade de uma empresa, decorrente de exposição negativa prolongada ou recorrente, na mídia. O passivo de imagem é tanto maior ou mais prejudicial quanto menor for a habilidade da empresa em lidar com situações de crise, nas quais sua idoneidade – ou de seus executivos – seja questionada pela empresa (FORNI: 2003).
Pauta = Agenda dos assuntos que são previstos na cobertura jornalística.
Plantar Notícias = Propor a um jornalista (especialmente colunistas) menção a determinados fatos de interesse estrito da fonte. Ou seja, fatos que normalmente não têm conexão com o interesse público, mas somente com necessidades imediatas de visibilidade. Prática em desuso, por seu comprometimento ético nas modernas assessorias de Imprensa.
Produtor de Conteúdo = Termos associados ao advento da internet. Diz respeito aos profissionais ou empresas fornecedoras terceirizadas que abastecem os sites mantidos pelas empresas, com notícias e outras informações.
Publicação de Degustação = Termo que designa uma publicação não-amparada por indicadores consistentes “de mercado” : boa quantidade de vendas e de assinaturas, tiragem numericamente significativa, entre outros critérios. Trata-se de jargão usado por empresas de distribuição e de venda de anúncios. Uma revista de degustação, por exemplo, não tem características comerciais que viabilizem sua exposição massificada em grandes redes de bancas e livrarias.
Relações Públicas = Atividade que se pauta pela necessidade de manter, por meio de ações, sistematizadas, o “bom conceito” de uma empresa com seu público de interesse. Seu início (cujas raízes alguns autores reportam ao século 18) coincide com a crescente importância da modernidade do papel das empresas diante da manutenção da ordem e do equilíbrio social, muitas vezes ocupando um espaço que antes era quase exclusivo do Estado. Trata-se de uma responsabilidade que, se acentua na era pós-industrial, quando muitos autores (especialmente IANNI:1999) conferem às empresas o atributo de sujeitos principais do movimento de internacionalização da economia.
Release = Material distribuído para a imprensa sobre assunto a qual se pretende dar divulgação. Respeito à linguagem específica dos diferentes veículos e à estrutura discursiva básica do texto jornalístico (DUARTE: 2003)
Revista Customizada = Publicações de larga tiragem, ampla distribuição e conteúdos editoriais muito assemelhados aos de revistas de mercado. As revistas customizadas (do inglês custom, feito sobre encomenda), no entanto, são quase totalmente pagas por determinada empresa e não pela venda de anúncios diversificados – que as utiliza também, como instrumento de Marketing Institucional. Estão presentes, com exemplos importantes, no cenário da mídia brasileira. Exemplo: Revistas Veredas, publicadas pelo Banco do Brasil.
Sala de Imprensa = Sites específicos, desenvolvidos com o objetivo principal de aprimorar por meio de novas tecnologias, o relacionamento entre fontes – normalmente, institucionais ou empresariais – e jornalistas. Nas salas de imprensa, os jornalistas podem encontrar bancos de dados, informações de última hora sobre uma empresa, ou mesmo participar de entrevista on line com executivos disponíveis como fontes. A tendência é de aprimoramento constante das salas, que passarão a oferecer “pacotes segmentados” de informação, de acordo com a área de cobertura de cada jornalista, por exemplo.
Separar o joio do trigo = O bom jornalista deve ter habilidade de, entre a grande quantidade de informações que recebe, selecionar aquilo que realmente importa à sociedade. A partir dessa noção, ironicamente, diz-se que o jornalista é um profissional que “separa o joio do trigo” e “publica o joio”. A anedota atesta que o conflito e a polêmica são as bases inescapáveis de sustentação do discurso jornalístico, ao mesmo tempo ressalta os preconceitos estabelecidos na cultura jornalística, catalisadores de um tipo de niilismo recorrente da cobertura noticiosa.
Timing = Controle do ritmo, da velocidade. O jornalista é um profissional que trabalha sob pressão, em ritmo acelerado, normalmente açodado por horários-limite e pela necessidade de publicar o fato novo antes que a concorrência o faça. Entender o timing do trabalho jornalístico é condição fundamental para que a fonte possa intervir, com sucesso, nas rotinas produtivas da notícia. A visibilidade de uma fonte muitas vezes está associada à capacidade de administrar a informação disponível, no tempo solicitado pelo jornalista.
Turbinar a informação = Transformar em essencial ou espetacular, um tema a princípio, irrelevante. Trata-se de agregar atributos a um fato corriqueiro, de modo a despertar o interesse da mídia.
Vazamento = Divulgação extra-oficial de informação institucional, para colocar a fonte em situação vulnerável, para testar a repercussão do assunto ou com um objetivo estratégico para a organização.
Workshop com jornalistas = Alternativa que vem sendo utilizada pelas fontes institucionais e corporativas para a aproximação, cooperação e relacionamento com jornalistas. Trata-se de reuniões formais de trabalho em que os executivos de uma empresa recebem jornalistas para auxiliá-los, com a transmissão de expertise e conhecimento técnico, na cobertura de determinados temas. Nos workshops com jornalistas, os executivos tratam dos assuntos de forma abrangente, sem necessariamente, fornecer dados da própria empresa, como exemplos. É o caso de cursos rápidos sobre formação de resultados, análise de risco, marketing e outros temas.
Workshopmídia = Versão resumida do media training. Trata-se de uma reunião de trabalho – com duração de um dia ou menos – em que são discutidos temas relacionados ao atendimento às demandas da mídia e ao contexto jornalístico do momento. Normalmente, os workshopmedia reúnem executivos do alto escalão da empresa, sem disponibilidade de agenda para treinamentos mais longos.
Glossario_Assessoria_01
Glossário de Assessoria de Comunicação:
Acontecimentos Programados = Fatos que adquirem dimensão comunicativa, transformando-se em notícia na mídia, a partir de iniciativas de eventos previamente planejados e agendados pelas fontes. Dizem respeito, portanto, à origem de determinados acontecimentos noticiados pela Imprensa. Muitos estudos recentes (ver, especialmente, CHAPARRO:1998) apontam que os acontecimentos programados predominam no noticiário cotidiano, sobre outros que ecludem a partir de atributos intrinsecamente ligados aos fatos: o insólito, o novo, o espetacular. Conceito que se desenvolve de mudanças constatadas no âmago das condições econômicas e produtivas dos veículos de Comunicação, especialmente relativas à escassez de recursos infra-estruturais para a realização de coberturas extensas e à dependência das divulgações realizadas pelas fontes.
Afinar o discurso = Jargão que designa o compartilhamento de uma mesma “visão do mundo”, por parte dos executivos de uma empresa, diante das dificuldades circunstanciais enfrentadas pela corporação. “Afinar o discurso” entre as fontes é tática essencial na gestão de crises e momentos em que a empresa está vulnerável diante da mídia e da opinião pública. “Discurso afinado” em momentos difíceis, denota conhecimento da missão corporativa, profissionalismo, organização, capacidade da empresa de adaptar-se velozmente, às exigências de uma cobertura jornalística polêmica.
Agenda Setting = Embora em suas bases conceituais estejam em pauta desde o inicio do século 20, a hipótese do Agenda Setting foi proposta de maneira mais consistente nos estudos de Maxwell McCombs, no final dos anos 60. Diz respeito, grosso modo, à construção da realidade engendrada pela mídia, a partir da seleção temática do agendamento de recursos que merecem ser discutidos publicamente. Por serem portadores de status de noticia (WOLF: 1995 p. 130)
Agendar Notícias = Diz respeito à programação de acontecimentos, normalmente por meio de sugestões de pauta, ou de releases convocatórios de entrevistas coletivas, por exemplo. Prática que nas assessorias de imprensa, vem sendo aperfeiçoadas com a crescente possibilidade de intervenção das fontes nas rotinas de produção da notícia.
Análise de Desempenho = Com base nos dados obtidos por meio da auditoria de imagem, refere-se à comparação entre os desempenhos obtidos, na mídia, por empresas da mesma natureza. Exemplo: entre dois bancos, trata-se de averiguar qual obteve maior ou menor visibilidade para os seus produtos e serviços, num noticiário de determinado mês.
Assessoria de Imprensa = Um dos mais importantes serviços da Comunicação Organizacional. É a gestão dos fluxos de informação e relacionamento entre fontes de informação e os jornalistas (DUARTE: 2003). Trata-se de atividade que mescla o caráter difusor de notícias, ou de acontecimentos programados, relativos à instituição ou às pessoas físicas, com outro de recorte mais estratégico, no qual se estabelecem mecanismos de relacionamento e aproximação com os jornalistas.
Atributos de Notícia = Termo que vem substituindo, em alguns estudos teóricos do Jornalismo, o conceito de valor-notícia. Trata-se dos critérios que facultam uma informação, a possibilidade de transformar-se em notícia. Definem se um fato é atual ou relevante, do ponto de vista de categorias como: proximidade, notoriedade, conflito, surpresa, utilidade/prestação de serviço, curiosidades, e outros. Em relação ao conceito de valor-notícia, avançam no sentido de aquilatar a importância da macrointerlocução de interesses (do público, das diversas fontes, dos próprios jornalistas) que elegem ou aposentam determinados atributos. Trata-se de depurar melhor as hierarquias de interesses envolvidos na construção de realidade engendrada pela mídia.
Auditoria de Imagem = Monitoramento periódico do desempenho de uma instituição, empresa ou outra fonte de acontecimentos programados na mídia. Representa, em síntese, uma análise mais depurada e sofisticada do clipping de notícias, geralmente com base nas categorias “positivo”, “negativo”, e em análises quantitativas. Trata-se de um instrumental analítico relativamente recente à disposição das fontes e oferecido por empresas especializadas que desenvolveram softwares adequados para tal fim.
Balão de Ensaio = Informações colocadas estrategicamente no noticiário as quais visam gerar desdobramentos imediatos junto à opinião pública ou a determinados interesses. Exemplo: algum colunista aponta o nome de um político para o cargo de Ministro de Estado, mesmo que a autoridade ainda não tenha sido indicada. O objetivo é usar o poder de penetração da mídia para fazer campanha contra ou a favor de um nome.
Boletins Eletrônicos = Resumos informativos de conteúdos de sites da internet, que são enviados a clientes previamente cadastrados. A periodicidade dos boletins, normalmente, é semanal, mas varia de acordo com as estratégias mercadológicas adotadas pelo mantenedor do site. A produção dos boletins envolve Jornalismo Empresarial e modelos de texto da comunicação mercadológica.
Boneco = No Jornalismo Fotográfico: enquadramento padrão, formal, do rosto de uma pessoa/fonte. Normalmente, quando não há repórteres fotográficos disponíveis, alguns veículos pedem que a assessoria de imprensa forneça bonecos dos entrevistados. Na Produção Gráfica: o boneco é a primeira versão composta, ou montada com proposta de diagramação, da peça que se pretende produzir.
Briefing = Resumo de informações relativas a um fato, normalmente relatado por meio de contatos informais, transmitido de uma fonte para um jornalista.
Check List = Lista de controle, supervisão, checagem de tarefas que devem ser realizadas para o sucesso completo de algum trabalho da assessoria de imprensa
Clipping = Serviço de apuração, coleção, recorte (no caso de jornais e revistas) e fornecimento diário, sistematizado, das notícias veiculadas sobre a empresa, na mídia (BUENO:2003).
Comunicação Empresarial = São tênues as fronteiras do significado dessa expressão com aqueles de outras expressões correlatas: Comunicação Institucional, Comunicação Integrada, Comunicação Corporativa, por exemplo. Existem muitas formulações a respeito. Grosso modo, sintetizam o caráter estratégico da comunicação de uma empresa com seus públicos diversos, por meio de instrumentos e técnicas que se tornam tão sofisticados e complexos quanto a teia de relações da empresa com seu ambiente. O objetivo é aumentar a eficácia dos processos de gestão da empresa, tanto no que se refere aos aspectos internos, corporativos, quanto externos, no relacionamento com a sociedade e com outras empresas.
Comunicação Mercadológica = Setor da assessoria de Comunicação Social que se relaciona diretamente com as Agências de Publicidade contratadas pela empresa ou que atende às demandas de patrocínio apresentadas pelo “mercado”. Levam até as agências as necessidades de visibilidade publicitária para os produtos e serviços dos diversos setores da empresa. A partir dos contatos internos, elaboram os chamados briefings, e os repassam para as Agências de Publicidade, as quais confeccionam os anúncios ou outro tipo de “material mercadológico”.
Discursos interessados = Referencial teórico que diz respeito ao “agir da fonte, por meio do dizer”, no Jornalismo (CHAPARRO: 1998). Discursos interessados ou privados podem coincidir com o interesse público quando são portadores de temas relevantes para a sociedade em geral. Os discursos interessados representam um desafio crescente para quem estuda a Comunicação de Massa, quando evidenciam que as fronteiras entre a Publicidade e o Jornalismo são cada vez mais tênues, no âmbito de um noticiário amplamente modificado pelo poder de intervenção das fontes.
Divulgação jornalística = Atividade que contempla o caráter exclusivamente difusor de notícias. Não envolve o aspecto mais amplo e estratégico do atendimento às demandas do jornalista. È o ponto de corte existente entre o trabalho dos divulgadores e dos assessores.
Embargo = Acordo tácito firmado com jornalistas, para que determinado material entregue pela assessoria só seja divulgado a partir da data previamente combinada. Com o embargo, a imprensa pode trabalhar, previamente, e com maior calma e profundidade, o tema e o contexto que vai dar suporte à notícia, quando de sua divulgação. É essa possibilidade que torna o embargo atraente para a mídia. Não há garantias legais, o que o torna ancorado unicamente nas relações de confiabilidade que se estabelecem entre os dois pólos.
Enquadramento = Conforme Molleda, no livro Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia, é “um esquema de interpretação” que organiza mensagens e ocorrências, com vista na obtenção de sentido.
Estratégia Proativa = Diz respeito à geração periódica de acontecimentos programados (sem a respectiva necessidade de demanda por parte da mídia), ou à disponibilidade permanente e estratégica para o atendimento à imprensa. Trata-se de otimizar a visibilidade do assessorado por meio de ações diretas de intervenção na pauta dos veículos.
Estratégia Reativa = “Sair de Cena”. Não gerar fatos, por opção estratégica, embora isso não signifique, necessariamente, deixar de atender às eventuais demandas da imprensa. Caracteriza um momento em que a visibilidade pode tornar a fonte vulnerável
Estrutura de Custos = No Jornalismo, diz respeito às condições financeiras, logísticas e de infra-estrutura de que um veículo de Comunicação dispõe para gerir o produto noticioso. A capacidade de realizar coberturas jornalística, ou de designar equipes de repórteres para acompanhar determinado evento programado, por exemplo, é condicionada pela “estrutura de custos” de um fato, observado do ponto de vista do veículo de Comunicação.
Follow up = O termo designa o acompanhamento, pelo assessor, de uma pauta na redação. Também refere-se ao trabalho de convocação dos jornalistas para uma coletiva. Significa uma nova chamada, uma confirmação da presença dos profissionais contratados. Tornou-se uma necessidade, em função da tentativa de intervir, com sucesso, nas agendas sempre tumultuadas da imprensa.
Fonte Episódica = O termo refere-se a pessoas “comuns”, sem status de autoridade econômica ou política, que, por pouco tempo, são fontes destacadas de um tema normalmente espetacular. Hoje, na berlinda, amanhã no ostracismo completo. Caso de pessoas como o motorista Eriberto França, personagem central na cobertura do impeachment do Ex-presidente Fernando Collor.
Foto Montada = O repórter fotográfico compõe o cenário a ser fotografado, de acordo com a demanda do veiculo. Poses e disposição planejada de elementos da imagem simulam espontaneidade e registro circunstancial.
Gancho = Elemento gerador da notícia, que agrega os valores do tempo, contexto, pertinência e outros mais, atribuidores do caráter que faculta a uma informação a possibilidade de tornar-se notícia.
Interesse Público = Critério asserverador da relevância de determinada informação para toda a sociedade, e não apenas para a fonte que a fornece. Está relacionado ao próprio compromisso ético da atividade jornalística (CHAGAS: 2003). Selecionar o que é, ou não, do interesse público, constitui a primeira lição do Jornalismo. A definição precisa do conceito vem sendo desafiada, no entanto, pela capacidade crescente de intervenção das fontes – sejam elas institucionais, corporativas ou episódicas – na produção da notícia. O interesse privado pode coincidir, ou não, com o interesse público.
Jornalismo on line – Tempo Real = Termo que se refere ao Jornalismo Praticado pelas agências de notícias que veiculam informações on line, instantâneas, ou seja, no chamado “tempo real”. As notícias são curtas, com aproximadamente três parágrafos, e são enviadas para os terminais de computador dos usuários – assinantes dos serviços das agências – tão logo eclodem os fatos. Ou seja, o repórter que apura e transmite os dados – normalmente pelo telefone celular – é, ao mesmo tempo, o editor da notícia. As agências proliferaram nos últimos anos e estão vinculadas aos jornais tradicionais e aos grandes grupos de Comunicação, nacionais e internacionais. Veiculam, sobretudo, informações políticas, econômicas, ou especializadas em produtos, cotações, análises financeiras, entre outras. Alguns autores (KUCINSKI:1996) afirmam que o mercado financeiro e as agências são, de fato, parte de um mesmo fenômeno.
Lead = A introdução do texto jornalístico, que vem no primeiro parágrafo. O que há de mais importante na notícia. Nele, o jornalista procura responder o que, o quando, o onde e o quem.
Texto Análise_Deixe Ir
Deixe ir
Despedir-se de algo que não faz mais sentido e abrir-se para os desafios e as oportunidades de um novo ciclo é parte natural da vida. Então por que será que é tão difícil dizer adeus?
Dia desses, assisti a uma mostra de curtas e médias-metragens do diretor norte-americano Jay Rosenblatt, que antes de ser cineasta trabalhou como psicólogo. Rosenblatt propõe interpretações muito particulares para a realidade em seus documentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção: Membro Fantasma, uma reflexão poética sobre a dor e o aprendizado do adeus. Numa de suas passagens mais marcantes, um homem tosa uma ovelha enquanto uma voz narra as diferentes fases do luto. Indagado sobre as razões de ter escolhido essa cena para ilustrar a perda, Rosenblatt respondeu: Queria uma metáfora que também significasse renovação. Uma imagem que sintetizasse, ao mesmo tempo, vulnerabilidade e entrega. A ovelha perde aquela cobertura de lã; mas, ao longo de sua existência, outras crescerão e serão tosadas. Um ciclo natural, portanto.
Existem momentos assim na vida, de corte, de conclusão. A perda pode vir por uma circunstância externa, como no caso da morte de alguém querido, uma demissão, uma separação repentina, um acidente. Mas pode também ser decorrente de um processo em que a decisão final depende de nós. De qualquer forma, nos dois casos, temos de nos despedir. E esse processo dói.
Deixar ir embora faz parte da existência, tanto quanto começar um ciclo novo. Só que, em diferentes graus, todo ser humano tem dificuldade de colocar um ponto final.
Por isso, teima em insistir numa situação conhecida, embora já insatisfatória, e não consegue assumir que aquela etapa esgotou-se e que deve finalizá-la. É preciso mesmo coragem para dizer adeus. Um adeus verdadeiro, do fundo da alma e com consciência, e não um até breve, volto já. É sobre isso, leitor, que vamos falar aqui.
O que é o adeus?
Em primeiro lugar, tiremos a carga negativa que gira em torno da despedida. Por si só, adeus não quer dizer desistência, abandono ou fracasso: essas são interpretações atribuídas por nós mesmos. O psicólogo Wagner Canalonga, sacerdote da Sociedade Taoísta de São Paulo, recorre a uma imagem bonita para representar o adeus: é como atravessar uma porta, deixando um ambiente para entrar em outro. A mesma porta que se fecha atrás de você, impossibilitando seu retorno para o primeiro cômodo, permite sua entrada no novo aposento. Em outras palavras, o fim é sempre o começo de uma outra história. Ter isso claro traz uma compreensão diferente e mais leve do que está por vir.
Outra metáfora bastante oportuna: você já ouviu falar de ecdise? Trata-se da mudança periódica de casca dos artrópodes. O esqueleto externo, rígido, limita o crescimento do bichinho. Por isso, de tempos em tempos, é preciso que ele deixe a casca velha para formar uma nova e mais folgada e continuar a se desenvolver. Assim também é conosco: as diversas experiências vividas dia a dia vão nos alargando interiormente. Até o instante em que as escolhas antigas tornam-se obsoletas e novas se fazem necessárias mesmo que seja para continuar na trajetória anterior (no casamento, na carreira, naquele modo de viver), mas com outra presença e outros paradigmas.
E como identificar esse instante de revelação? É um forte chamado interior, como se uma parte bastante profunda de você a alma e não o ego o conduzisse para um rumo um tanto indefinido. Mas, aos poucos, aquele caminho vai fazendo sentido, afirma a psicóloga junguiana Regina Nanô, de São Paulo. Hoje a razão virou o único ponto de apoio para as pessoas. Mas a intuição é que nos guia, por isso devemos levar em conta o que diz nosso coração. Uma amiga tem um reflexão muito bonita a respeito. Ela costuma falar que o ego grita, a alma sussurra. Como vivemos num mundo ruidoso, tomado por mandamentos vindos de todos os lados (da cultura, da moda, da publicidade), só escutamos os berros os do ego, querendo manter o controle a todo custo, e os dos outros. Os apelos da alma, aqueles que injetam vitalidade na existência, ficam inaudíveis.
E a hora certa?
O poeta espanhol Antonio Machado tem um belo verso no qual transmite essa idéia: O vento, num dia radioso, certa vez chamou. A frase sintetiza o que se passou comigo. Há pouco mais de três meses, comecei a me despedir de uma Fernanda antiga para abrigar uma outra, renovada, que está docemente vindo à tona. Deixei um emprego bacana, com um bom salário, numa empresa em que trabalhei por sete anos e meio e onde tinha algum status e vários amigos. Para quê? Não sei exatamente dedicar-me ao teatro e ao clown, coadjuvantes da minha trajetória anterior e que agora pedem para ser protagonistas; viajar pelo mundo visitando projetos humanitários; escrever livros. Ao menos, é para isso que me sinto impelida. E esta matéria faz parte da minha despedida, ajudando a aceitar meus sentimentos nesse período frutífero de incertezas.
O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho, afirma a filósofa Dulce Critelli, professora da PUC de São Paulo. Para ela, a lucidez na finalização de um ciclo indica um importante sinal de maturidade: o indivíduo compreende que é responsável pela própria existência. E também pelos ganhos e perdas, acertos e erros de suas escolhas. O processo da despedida sempre carrega duas grandes questões cruciais, aliás, para a maioria das tradições filosóficas. Quem sou eu? E qual é o sentido da vida? Segundo a filósofa, nem sempre o adeus é consciente, fruto de um período de maturação. Pode ser o desejo de escapar de um contexto desconfortável. Isso acontece, por exemplo, quando uma nova habilidade é requerida no trabalho e o indivíduo se sente acuado ou inseguro. Também quando a intimidade começa a se estabelecer num relacionamento amoroso e uma das partes acha que não suporta a situação. Em ambos os casos, a pessoa decide, às pressas, pôr um ponto final na experiência a fim de fugir dela e evitar o confronto com seus fantasmas. Essa atitude não é de engajamento com uma decisão madura, afi rma Dulce. Na ruptura coerente, existe uma construção gradativa de bases para o novo caminho.
Portanto, antes de dizer adeus, vale refletir bastante, ponderar, pensar em como dar os próximos passos. E também perguntar: por que quero fazer isso? Para escapar de uma dificuldade ou porque desejo dar um rumo mais rico à minha vida?
A publicitária Rosângela Carrasco, de 46 anos, levou bastante tempo para amadurecer sua resolução de mudar totalmente de rumo. Em julho de 2006, depois de mais de uma década empregada numa livraria, ela pediu demissão e lançou-se na carreira de atriz, com a qual sonhava desde a adolescência. Trabalhava naquele emprego, mas a vozinha interior continuava presente, dizendo que eu poderia ser mais feliz. Aquele trabalho não tinha mais a ver comigo.
O adeus ao trabalho, em si, não foi tão difícil. Mas as renúncias que vieram em seguida sim. Rosângela alugou o apartamento em que morava e voltou a viver com a mãe, depois de mais de 20 anos. Além da privacidade, sente falta também dos amigos do ambiente de trabalho, com os quais já não tem tanto contato. Sem contar o desafio de sempre: as finanças. Porém, as conquistas compensam. Mesmo que, a olhos alheios, pareçam ainda insuficientes, para Rosângela elas faíscam como pedras preciosas. Ano passado, ficou três meses em cartaz com a peça Pedido de Casamento, de Anton Tchekhov, no Teatro Bibi Ferreira. Acho bacana ter encontrado a coragem de buscar meu sonho e ter dito adeus a coisas até então importantes, conta ela.
Por que o sofrimento?
Eis uma das grandes complicações em despedir-se: como admitir que a vida planejada anteriormente não faz mais sentido para a pessoa que você é hoje? A impermanência da existência incomoda porque inviabiliza nosso controle. Por isso, uma das razões para o sofrimento gerado pelo adeus é um velho conhecido: o apego.
Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às situações e isso nos liga a elas de tal forma que não conseguimos nos desapegar, diz o psicólogo Arnaldo Bassoli, da Associação Palas Athena, em São Paulo. Mas, se as transformações internas e externas são inevitáveis, por que se agarrar a certos momentos quando sua existência está levando você para outro lado?
O problema é que o ser humano, ainda mais na sociedade consumista de hoje, não se contenta apenas em vivenciar algo; ele quer possuir esse algo, retê-lo, conservá-lo em formol para que se mantenha para sempre tal e qual era no início e isso vale para tudo: um parceiro, um emprego, um status, um argumento, até uma rotina. E que angústia perceber a impossibilidade desse desejo! Bassoli usa uma metáfora budista para mostrar como lidar com essa situação natural da vida, que é de constante mutação: segure firmemente um objeto em suas mãos, alongue os braços à sua frente com a palma para baixo e relaxe seus dedos: você perderá o que carrega. Contudo, se mantiver a palma da mão para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo, então, é conservar o que se tem com desapego ou, então, soltar de vez o que não tem mais valor.
A paulistana Renata, advogada e estudante de Letras, 40 anos, experimentou as benesses, riscos e desafios de dizer adeus para o que não valia mais a pena. Trabalhava em um banco, tinha bom cargo e salário condizente. Porém, não se sentia feliz com seu trabalho. O destino, então, deu um empurrãozinho: ela apaixonouse por um italiano de passagem pelo Brasil. Os dois começaram a namorar e, quase um ano depois, decidiram se casar e viver em Milão, a cidade natal do rapaz. Foram cinco anos de intenso aprendizado e amadurecimento. Até que também essa etapa acabou. No fundo, apenas dizemos adeus aos rótulos que carregamos: profissão, estilo de vida, condição financeira. Mas às vezes é necessário abandoná-los para permanecermos fiéis à nossa essência, afirma.
próxima
E o que nos segura?
Um adeus autêntico exige coragem, ainda mais quando vai contra o que propõe a sociedade contemporânea. Valores como segurança e estabilidade (muito mais no sentido da imobilidade que da harmonia) permanecem em alta. Então, por que arriscar? Ao mesmo tempo, a sociedade também nos impele ao frenesi das falsas mudanças (de carro, roupas, bens de consumo, parceiros sexuais...) que nos iludem com suas promessas de felicidade. Na agitação de vida atual, muitas vezes a pessoa não consegue gestar um novo projeto para si mesmo. Ou, por pressões externas, não chega nem sequer a desejar a formulá-lo, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor da USP. As únicas mudanças permitidas são aquelas que estão dentro dos esquemas formulados pela sociedade de consumo e sua infinita oferta de papéis e identidades. Tudo isso em benefício de uma falsa liberdade, posto que delimitada, diz ele. A solução nesse caso é seguir o que de mais particular e verdadeiro clama dentro de nós. E seguir esse anseio verdadeiro sem ter medo ou culpa.
Negar a própria bem-aventurança, como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornarse surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir e isso explode num sintoma físico, diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?
Ganhos, não perdas
O medo da perda dificulta essa tomada de decisão. Especialmente pela constatação de que deixaremos para trás um parte de nós mesmos o que fomos para sermos o que somos agora. Porém, junto com toda renúncia há sempre um ganho e um aprendizado, que aos poucos se dão a conhecer. Todo adeus traz, consigo, um sim para a vida dito imediatamente antes, afirma a filósofa Dulce Critelli. Como a princípio esse sim nem sempre é evidente, vem a angústia. Muitos especialistas comparam o processo de encerramento de um ciclo à experiência do luto, com as mesmas fases passadas por alguém que tenha perdido um parente, por exemplo. Há o choque inicial, o período de negação ou dúvida e o momento em que sentimentos e sensações misturados (da insegurança à solidão, da confiança a um intenso contentamento) vêm à tona de forma torrencial. Depois, o instante em que o indivíduo se dá conta de que o fato é real e, por fim, a aceitação. Permitir-se vivenciar todos os estágios é fundamental.
Os especialistas em luto, inclusive, aconselham externalizar esse adeus, dizer com todas as letras para si mesmo o que se deseja largar e soltar. Algumas pessoas precisam verbalizar o que querem da vida para ganhar força para tomar uma decisão. Outra recomendação é reservar uma parte do dia para viver a dor da perda. Nesse momento, que pode ser antes de dormir ou num fim de tarde, por exemplo, se pode chorar, ir ao fundo do poço. Durante o restante do dia, porém, o mais aconselhável é viver o presente, sem se deixar carregar pelo sofrimento.
O adeus acontece desde o instante em que resolvo mudar ou inicio a mudança. Até o momento da ruptura, elaboro o que ganho e o que perco e faço gradativamente as despedidas, afirma a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos da Morte da USP. O luto continua, mesmo depois da decisão concretizada. Por isso, é comum que a pessoa se pegue, tempos mais tarde, chorando de saudade ou questionando se aquela opção foi a melhor.
Segundo Ingrid, de todas as despedidas cotidianas, a mais delicada é a da separação amorosa. Mesmo que seja um adeus fruto de consenso entre ambas as partes, a aceitação da própria morte na consciência do outro é doloridíssima, diz. Reconhecer que você não fará mais parte das escolhas e das alegrias do ex, que não partilhará mais suas alegrias, é muito difícil. Um amigo meu, hoje com 39 anos, há algum tempo me falou sobre sua experiência: Os períodos pré, durante e pós-separação doeram em mim tanto quanto a morte de meu pai, conta. Precisei olhar para o futuro, e, mais do que nunca, considerar a fase anterior como parte da memória e de minha formação, disse.
Nosso novo eu
A nova etapa inevitavelmente trará surpresas, e aqui reside outro obstáculo freqüente na hora de dizer adeus: o medo do desconhecido, do imprevisível. De sair de uma situação esquematizada um parceiro que já conhece seus defeitos, uma função que domina no trabalho, um ambiente em que todos sabem quem você é para outra diferente, com as definições ainda por fazer. O adeus traz uma sensação de caos, mas é importante ter claro que se trata de uma reorganização e não de uma desestruturação, diz Regina Nanô. A despedida implica lançar outro olhar não só ao que está ao redor, mas também a si mesmo e o grande medo da despedida, talvez o maior de todos, vem daí. Medo desse novo eu que, com o fim do ciclo, ganha permissão para desabrochar e revelar-se ao mundo. Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.
O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão. Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus, diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho.
A propósito, despeço-me aqui, leitor. Preciso arrumar as malas, desmontar o apartamento. Espero que sua trajetória seja permeada por belos momentos de despedida. Adeus!
Para saber mais
Livros:
A Separação dos Amantes Uma Fenomenologia da Morte, Igor Caruso, Cortez
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche, Talento
Fonte: Revista Vida Simple
Despedir-se de algo que não faz mais sentido e abrir-se para os desafios e as oportunidades de um novo ciclo é parte natural da vida. Então por que será que é tão difícil dizer adeus?
Dia desses, assisti a uma mostra de curtas e médias-metragens do diretor norte-americano Jay Rosenblatt, que antes de ser cineasta trabalhou como psicólogo. Rosenblatt propõe interpretações muito particulares para a realidade em seus documentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção: Membro Fantasma, uma reflexão poética sobre a dor e o aprendizado do adeus. Numa de suas passagens mais marcantes, um homem tosa uma ovelha enquanto uma voz narra as diferentes fases do luto. Indagado sobre as razões de ter escolhido essa cena para ilustrar a perda, Rosenblatt respondeu: Queria uma metáfora que também significasse renovação. Uma imagem que sintetizasse, ao mesmo tempo, vulnerabilidade e entrega. A ovelha perde aquela cobertura de lã; mas, ao longo de sua existência, outras crescerão e serão tosadas. Um ciclo natural, portanto.
Existem momentos assim na vida, de corte, de conclusão. A perda pode vir por uma circunstância externa, como no caso da morte de alguém querido, uma demissão, uma separação repentina, um acidente. Mas pode também ser decorrente de um processo em que a decisão final depende de nós. De qualquer forma, nos dois casos, temos de nos despedir. E esse processo dói.
Deixar ir embora faz parte da existência, tanto quanto começar um ciclo novo. Só que, em diferentes graus, todo ser humano tem dificuldade de colocar um ponto final.
Por isso, teima em insistir numa situação conhecida, embora já insatisfatória, e não consegue assumir que aquela etapa esgotou-se e que deve finalizá-la. É preciso mesmo coragem para dizer adeus. Um adeus verdadeiro, do fundo da alma e com consciência, e não um até breve, volto já. É sobre isso, leitor, que vamos falar aqui.
O que é o adeus?
Em primeiro lugar, tiremos a carga negativa que gira em torno da despedida. Por si só, adeus não quer dizer desistência, abandono ou fracasso: essas são interpretações atribuídas por nós mesmos. O psicólogo Wagner Canalonga, sacerdote da Sociedade Taoísta de São Paulo, recorre a uma imagem bonita para representar o adeus: é como atravessar uma porta, deixando um ambiente para entrar em outro. A mesma porta que se fecha atrás de você, impossibilitando seu retorno para o primeiro cômodo, permite sua entrada no novo aposento. Em outras palavras, o fim é sempre o começo de uma outra história. Ter isso claro traz uma compreensão diferente e mais leve do que está por vir.
Outra metáfora bastante oportuna: você já ouviu falar de ecdise? Trata-se da mudança periódica de casca dos artrópodes. O esqueleto externo, rígido, limita o crescimento do bichinho. Por isso, de tempos em tempos, é preciso que ele deixe a casca velha para formar uma nova e mais folgada e continuar a se desenvolver. Assim também é conosco: as diversas experiências vividas dia a dia vão nos alargando interiormente. Até o instante em que as escolhas antigas tornam-se obsoletas e novas se fazem necessárias mesmo que seja para continuar na trajetória anterior (no casamento, na carreira, naquele modo de viver), mas com outra presença e outros paradigmas.
E como identificar esse instante de revelação? É um forte chamado interior, como se uma parte bastante profunda de você a alma e não o ego o conduzisse para um rumo um tanto indefinido. Mas, aos poucos, aquele caminho vai fazendo sentido, afirma a psicóloga junguiana Regina Nanô, de São Paulo. Hoje a razão virou o único ponto de apoio para as pessoas. Mas a intuição é que nos guia, por isso devemos levar em conta o que diz nosso coração. Uma amiga tem um reflexão muito bonita a respeito. Ela costuma falar que o ego grita, a alma sussurra. Como vivemos num mundo ruidoso, tomado por mandamentos vindos de todos os lados (da cultura, da moda, da publicidade), só escutamos os berros os do ego, querendo manter o controle a todo custo, e os dos outros. Os apelos da alma, aqueles que injetam vitalidade na existência, ficam inaudíveis.
E a hora certa?
O poeta espanhol Antonio Machado tem um belo verso no qual transmite essa idéia: O vento, num dia radioso, certa vez chamou. A frase sintetiza o que se passou comigo. Há pouco mais de três meses, comecei a me despedir de uma Fernanda antiga para abrigar uma outra, renovada, que está docemente vindo à tona. Deixei um emprego bacana, com um bom salário, numa empresa em que trabalhei por sete anos e meio e onde tinha algum status e vários amigos. Para quê? Não sei exatamente dedicar-me ao teatro e ao clown, coadjuvantes da minha trajetória anterior e que agora pedem para ser protagonistas; viajar pelo mundo visitando projetos humanitários; escrever livros. Ao menos, é para isso que me sinto impelida. E esta matéria faz parte da minha despedida, ajudando a aceitar meus sentimentos nesse período frutífero de incertezas.
O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho, afirma a filósofa Dulce Critelli, professora da PUC de São Paulo. Para ela, a lucidez na finalização de um ciclo indica um importante sinal de maturidade: o indivíduo compreende que é responsável pela própria existência. E também pelos ganhos e perdas, acertos e erros de suas escolhas. O processo da despedida sempre carrega duas grandes questões cruciais, aliás, para a maioria das tradições filosóficas. Quem sou eu? E qual é o sentido da vida? Segundo a filósofa, nem sempre o adeus é consciente, fruto de um período de maturação. Pode ser o desejo de escapar de um contexto desconfortável. Isso acontece, por exemplo, quando uma nova habilidade é requerida no trabalho e o indivíduo se sente acuado ou inseguro. Também quando a intimidade começa a se estabelecer num relacionamento amoroso e uma das partes acha que não suporta a situação. Em ambos os casos, a pessoa decide, às pressas, pôr um ponto final na experiência a fim de fugir dela e evitar o confronto com seus fantasmas. Essa atitude não é de engajamento com uma decisão madura, afi rma Dulce. Na ruptura coerente, existe uma construção gradativa de bases para o novo caminho.
Portanto, antes de dizer adeus, vale refletir bastante, ponderar, pensar em como dar os próximos passos. E também perguntar: por que quero fazer isso? Para escapar de uma dificuldade ou porque desejo dar um rumo mais rico à minha vida?
A publicitária Rosângela Carrasco, de 46 anos, levou bastante tempo para amadurecer sua resolução de mudar totalmente de rumo. Em julho de 2006, depois de mais de uma década empregada numa livraria, ela pediu demissão e lançou-se na carreira de atriz, com a qual sonhava desde a adolescência. Trabalhava naquele emprego, mas a vozinha interior continuava presente, dizendo que eu poderia ser mais feliz. Aquele trabalho não tinha mais a ver comigo.
O adeus ao trabalho, em si, não foi tão difícil. Mas as renúncias que vieram em seguida sim. Rosângela alugou o apartamento em que morava e voltou a viver com a mãe, depois de mais de 20 anos. Além da privacidade, sente falta também dos amigos do ambiente de trabalho, com os quais já não tem tanto contato. Sem contar o desafio de sempre: as finanças. Porém, as conquistas compensam. Mesmo que, a olhos alheios, pareçam ainda insuficientes, para Rosângela elas faíscam como pedras preciosas. Ano passado, ficou três meses em cartaz com a peça Pedido de Casamento, de Anton Tchekhov, no Teatro Bibi Ferreira. Acho bacana ter encontrado a coragem de buscar meu sonho e ter dito adeus a coisas até então importantes, conta ela.
Por que o sofrimento?
Eis uma das grandes complicações em despedir-se: como admitir que a vida planejada anteriormente não faz mais sentido para a pessoa que você é hoje? A impermanência da existência incomoda porque inviabiliza nosso controle. Por isso, uma das razões para o sofrimento gerado pelo adeus é um velho conhecido: o apego.
Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às situações e isso nos liga a elas de tal forma que não conseguimos nos desapegar, diz o psicólogo Arnaldo Bassoli, da Associação Palas Athena, em São Paulo. Mas, se as transformações internas e externas são inevitáveis, por que se agarrar a certos momentos quando sua existência está levando você para outro lado?
O problema é que o ser humano, ainda mais na sociedade consumista de hoje, não se contenta apenas em vivenciar algo; ele quer possuir esse algo, retê-lo, conservá-lo em formol para que se mantenha para sempre tal e qual era no início e isso vale para tudo: um parceiro, um emprego, um status, um argumento, até uma rotina. E que angústia perceber a impossibilidade desse desejo! Bassoli usa uma metáfora budista para mostrar como lidar com essa situação natural da vida, que é de constante mutação: segure firmemente um objeto em suas mãos, alongue os braços à sua frente com a palma para baixo e relaxe seus dedos: você perderá o que carrega. Contudo, se mantiver a palma da mão para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo, então, é conservar o que se tem com desapego ou, então, soltar de vez o que não tem mais valor.
A paulistana Renata, advogada e estudante de Letras, 40 anos, experimentou as benesses, riscos e desafios de dizer adeus para o que não valia mais a pena. Trabalhava em um banco, tinha bom cargo e salário condizente. Porém, não se sentia feliz com seu trabalho. O destino, então, deu um empurrãozinho: ela apaixonouse por um italiano de passagem pelo Brasil. Os dois começaram a namorar e, quase um ano depois, decidiram se casar e viver em Milão, a cidade natal do rapaz. Foram cinco anos de intenso aprendizado e amadurecimento. Até que também essa etapa acabou. No fundo, apenas dizemos adeus aos rótulos que carregamos: profissão, estilo de vida, condição financeira. Mas às vezes é necessário abandoná-los para permanecermos fiéis à nossa essência, afirma.
próxima
E o que nos segura?
Um adeus autêntico exige coragem, ainda mais quando vai contra o que propõe a sociedade contemporânea. Valores como segurança e estabilidade (muito mais no sentido da imobilidade que da harmonia) permanecem em alta. Então, por que arriscar? Ao mesmo tempo, a sociedade também nos impele ao frenesi das falsas mudanças (de carro, roupas, bens de consumo, parceiros sexuais...) que nos iludem com suas promessas de felicidade. Na agitação de vida atual, muitas vezes a pessoa não consegue gestar um novo projeto para si mesmo. Ou, por pressões externas, não chega nem sequer a desejar a formulá-lo, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor da USP. As únicas mudanças permitidas são aquelas que estão dentro dos esquemas formulados pela sociedade de consumo e sua infinita oferta de papéis e identidades. Tudo isso em benefício de uma falsa liberdade, posto que delimitada, diz ele. A solução nesse caso é seguir o que de mais particular e verdadeiro clama dentro de nós. E seguir esse anseio verdadeiro sem ter medo ou culpa.
Negar a própria bem-aventurança, como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornarse surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir e isso explode num sintoma físico, diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?
Ganhos, não perdas
O medo da perda dificulta essa tomada de decisão. Especialmente pela constatação de que deixaremos para trás um parte de nós mesmos o que fomos para sermos o que somos agora. Porém, junto com toda renúncia há sempre um ganho e um aprendizado, que aos poucos se dão a conhecer. Todo adeus traz, consigo, um sim para a vida dito imediatamente antes, afirma a filósofa Dulce Critelli. Como a princípio esse sim nem sempre é evidente, vem a angústia. Muitos especialistas comparam o processo de encerramento de um ciclo à experiência do luto, com as mesmas fases passadas por alguém que tenha perdido um parente, por exemplo. Há o choque inicial, o período de negação ou dúvida e o momento em que sentimentos e sensações misturados (da insegurança à solidão, da confiança a um intenso contentamento) vêm à tona de forma torrencial. Depois, o instante em que o indivíduo se dá conta de que o fato é real e, por fim, a aceitação. Permitir-se vivenciar todos os estágios é fundamental.
Os especialistas em luto, inclusive, aconselham externalizar esse adeus, dizer com todas as letras para si mesmo o que se deseja largar e soltar. Algumas pessoas precisam verbalizar o que querem da vida para ganhar força para tomar uma decisão. Outra recomendação é reservar uma parte do dia para viver a dor da perda. Nesse momento, que pode ser antes de dormir ou num fim de tarde, por exemplo, se pode chorar, ir ao fundo do poço. Durante o restante do dia, porém, o mais aconselhável é viver o presente, sem se deixar carregar pelo sofrimento.
O adeus acontece desde o instante em que resolvo mudar ou inicio a mudança. Até o momento da ruptura, elaboro o que ganho e o que perco e faço gradativamente as despedidas, afirma a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos da Morte da USP. O luto continua, mesmo depois da decisão concretizada. Por isso, é comum que a pessoa se pegue, tempos mais tarde, chorando de saudade ou questionando se aquela opção foi a melhor.
Segundo Ingrid, de todas as despedidas cotidianas, a mais delicada é a da separação amorosa. Mesmo que seja um adeus fruto de consenso entre ambas as partes, a aceitação da própria morte na consciência do outro é doloridíssima, diz. Reconhecer que você não fará mais parte das escolhas e das alegrias do ex, que não partilhará mais suas alegrias, é muito difícil. Um amigo meu, hoje com 39 anos, há algum tempo me falou sobre sua experiência: Os períodos pré, durante e pós-separação doeram em mim tanto quanto a morte de meu pai, conta. Precisei olhar para o futuro, e, mais do que nunca, considerar a fase anterior como parte da memória e de minha formação, disse.
Nosso novo eu
A nova etapa inevitavelmente trará surpresas, e aqui reside outro obstáculo freqüente na hora de dizer adeus: o medo do desconhecido, do imprevisível. De sair de uma situação esquematizada um parceiro que já conhece seus defeitos, uma função que domina no trabalho, um ambiente em que todos sabem quem você é para outra diferente, com as definições ainda por fazer. O adeus traz uma sensação de caos, mas é importante ter claro que se trata de uma reorganização e não de uma desestruturação, diz Regina Nanô. A despedida implica lançar outro olhar não só ao que está ao redor, mas também a si mesmo e o grande medo da despedida, talvez o maior de todos, vem daí. Medo desse novo eu que, com o fim do ciclo, ganha permissão para desabrochar e revelar-se ao mundo. Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.
O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão. Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus, diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho.
A propósito, despeço-me aqui, leitor. Preciso arrumar as malas, desmontar o apartamento. Espero que sua trajetória seja permeada por belos momentos de despedida. Adeus!
Para saber mais
Livros:
A Separação dos Amantes Uma Fenomenologia da Morte, Igor Caruso, Cortez
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche, Talento
Fonte: Revista Vida Simple
Aula_03 de março
Aula_Sala 509
Na aula Passada
Produção do texto da Aespe em grupo
Na Aula de Hoje
Apresentação dos seis primeiros grupos
Texto Análise_Deixa Ir
Na aula Passada
Produção do texto da Aespe em grupo
Na Aula de Hoje
Apresentação dos seis primeiros grupos
Texto Análise_Deixa Ir
Analise_Casca
Ficar em casa ou romper a casca?
Então os filhos se tornaram adultos e estão relativamente encaminhados na vida. Porém, nem pensam em sair para ganhar o mundo e acham ótimo ficar com a família (que, por sua vez, também está adorando tê-los sempre à vista). É normal ou será que existe alguma coisa de errado nisso?
É um fenômeno mundial: cada vez mais os filhos prolongam sua estada na casa dos pais, desfrutando de benesses como carinho e apoio quase inesgotáveis, liberdade, a comidinha predileta e outros confortos. Os pais parecem aceitar essa adolescência quase perpétua numa boa e, em muitos casos, estimulam a permanência dos filhos em casa até como uma estratégia para enfrentar o próprio envelhecimento. Mas há muita gente se perguntando se essa realidade é apenas mais uma faceta de um mundo em que os valores estão mudando rapidamente ou se há efetivamente algo de negativo nisso. Por isso, pais e filhos, leiam com carinho esta matéria. E experimentem, nem que seja por alguns momentos, trocar de papel e imaginar o que sente e pensa cada lado dessa história devidamente apresentada para filhos e pais abaixo.
A história dos filhos
A cosquinha que dá vontade de sair de casa já começou? Pode ser até que ela já tenha dado um pouco antes, ao sair da faculdade, aos 22 anos, ou quem sabe quando seus irmãos se casaram e você ficou para trás, aos 25, ou quando um amigo ou amiga o convidou para morar junto, aos 27. Mas parecia muito cedo ainda. Nesses momentos de dúvida, você olhou para seus pais, viu que ainda era muito ligado a eles, que gostava do conforto do seu quarto, que tinha muita liberdade e, principalmente, que a vida lá fora seria dureza. E não saiu. Não precisa se martirizar por isso: saiba que você está em ótima companhia. Filhos que ficam mais tempo em casa, até os 28, 30 ou 32 anos (se não for mais), transformaram-se num fenômeno recente, observado não só na classe média do Brasil como em vários países do mundo é a chamada geração canguru. Na Itália, por exemplo, filhos como você ficaram conhecidos como mammone (palavra que vem de mamma, a soberana mãe italiana que adora ter seus rebentos na barra da saia). Na França, o pessoal anda ficando mais com os pais porque os empregos também estão difíceis por lá. No Brasil, segundo o levantamento feito pelo geógrafo Arlindo Mello para sua tese de mestrado na Escola Nacional de Estatísticas do Rio de Janeiro, 25% por cento dos filhos que ainda moram na casa dos pais na Cidade Maravilhosa têm mais de 30 anos. É gente pra burro. Embora esse universo ainda não seja quantificado com a devida exatidão (segundo o IBGE, os jovens brasileiros que caem na vida mais cedo ainda são a maioria), a dificuldade para sobreviver e as facilidades dadas pelos pais andam conservando muita gente em casa. Portanto, você não é uma exceção isolada: muitas famílias estão mesmo abraçando seus filhos por mais tempo.
O mercado imobiliário, por exemplo, já detectou a mudança. Os enormes apartamentos com quatro suítes e cinco garagens ou os flats que se intercomunicam muitas vezes são vendidos para casais de alta renda com filhos adultos. Os proprietários mais velhos que têm apartamentos grandes não estão se desfazendo mais deles para ir para um menor. Ou os filhos ficaram com eles ou, se saíram, podem voltar, afirma Ely Whertheim, vice-presidente imobiliário do Sindicato das Construtoras de São Paulo (SindusCon-SP).
Fátima Fachin sabe muito bem disso. Aos 28 anos ela viu, abismada, seu pai comprar um apartamento com três suítes quando ela estava prestes a sair de casa para se casar, dois anos depois de sua irmã mais nova. Fátima questionou a decisão. E o pai respondeu na lata: Dou um prazo de carência de cinco anos para o casamento de vocês duas. Se der errado, estou esperando vocês aqui com sua mãe. Se não der, vendo o apartamento, compro um veleiro e vou para a Martinica. A Martinica, para o pai de Fátima, é a imagem de uma utopia, uma Pasárgada. Ele decidiu adiar seu sonho idílico por desconfiar da durabilidade do casamento de hoje e também por achá-las incapazes de sobreviver sozinhas, a partir mesmo de suas escolhas profissionais (música e artes plásticas). Pode ser pragmático, até generoso, mas, puxa, não dá para controlar a vida assim..., diz Fátima.
Luciana Alves Pereira é outra moça de 28 anos que desfrutava de um ambiente e tanto com a família. Filha de pai arquiteto, morava numa casa belíssima de madeira e vidro, fotografada por várias revistas de arquitetura. Mas, no fim do ano passado, começou a sentir que seu prazo de validade por lá já estava expirando. Por ser muito amiga e próxima dos pais, foi duro convencêlos de que queria deixá-los para experimentar a grande aventura da vida independente. Mas o destino ajudou: De repente, vi que se havia formado uma brecha em que eles não precisavam tanto mais de mim. Minha mãe estava bem, meu pai também e minha irmã já estava casada. Se não aproveitasse aquele momento em que tudo fluía, acho que depois ficaria muito difícil. Na sua decisão, está embutida bastante responsabilidade. Saí porque estava ganhando o suficiente para alugar um apartamento de quarto e sala no centro. Não tem sentido viver sozinha e esperar que pai e mãe ajudem a cobrir o cartão de crédito, diz a ajuizada Luciana. Também se sentiu feliz porque não precisou sair de casa por causa de namorado. A gente é de uma geração acostumada a zapear no controle remoto da televisão. Imagine se saísse por causa de alguém e não desse certo. Teria de voltar para casa com um gosto de fracasso na boca, com a sensação de que não conseguia sobreviver sozinha. Mesmo tendo a certeza de que pai e mãe a receberiam de braços abertos.
A história de Luciana mostra que a casa dos pais certamente estará aberta quando você precisar (ufa!). A psicóloga Lidia Aratangy, por exemplo, viu sua filha voltar com duas crianças pequenas após a moça ficar viúva com apenas 30 anos. Garanti que ela teria nosso apoio para o tempo que fosse necessário. No caso dela, isso durou um ano e meio. Mas minha filha sabia que ficar conosco era uma solução provisória, paliativa, afirma a psicóloga. Um tempo até ela poder se arrumar de novo na vida. Mesmo quando saem com menos idade, muitos jovens ainda conservam uma parte do seu ninho com os pais. É o caso do administrador de empresas Paulo Henrique (que pediu para ter o nome trocado nesta reportagem), 25 anos, que responde por um cargo de chefia numa multinacional da indústria química de São Paulo. Aluno brilhante e responsável, veio de Belo Horizonte aos 18 anos para estudar na capital paulista. Seus parcos recursos para se manter, porém, o fizeram morar em todos os ambientes possíveis.
Mesmo no último ano, já formado, trocou oito vezes de endereço, na maioria das vezes nada recomendáveis. É famoso entre os amigos como Mister Pig (ou Senhor Porco), numa alusão à infinidade de muquifos (também conhecidos como cabeça-de-porco) em que teve de morar em São Paulo. Só agora, num bom emprego e ganhando bem, Paulo decidiu se estabelecer. Mas quem vê seu desembaraço e independência como profissional nem desconfia que quase todo fim de semana ele arruma sua malinha e vai para Belo Horizonte para ver seus pais e ter a roupa lavada. De quebra, ainda volta com um a quentinha com aquela comida que só a mamãe sabe fazer.
Então, como você vê, existem dos acomodados aos que só querem uma força da família para cumprir seu projeto de vida. Aliás, essa é a grande pergunta que você deve fazer a si mesmo quando começar a coceirinha de querer sair de casa. Saber qual é seu projeto de vida esclarece a situação. Querer ficar na casa dos pais para fazer um mestrado ou curso de especialização para ter melhores chances no mercado de trabalho é uma coisa. Ficar porque tem certeza de que seu padrão de vida vai abaixar quando começar a pagar suas próprias contas é outra, diz a psicóloga Lidia Aratangy, que aconselha, inclusive, os pais a sentarem com seus filhos e perguntarem bem claramente o que eles pretendem fazer de suas vidas. Autora de livros sobre a relação de pais e filhos, Lidia, que já é avó, perturba-se com a infantilização exagerada dos jovens adultos de hoje. A infantilização começa cedo. Aos 12 anos, por exemplo, os adolescentes de hoje lêem as Aventuras do Capitão Cueca, um livro quase infantil. No meu tempo, a gente lia Erico Verissimo e boa literatura adulta. Isso faz diferença mais tarde, diz Lidia. Uma das razões para isso ocorrer talvez seja o excesso de mimos dos pais, que infantilizam os adolescentes e os deixam pouco tolerantes às frustrações como as crianças. Acontece que uma boa relação com as próprias frustrações é um dos alicerces da maturidade. Nesse caso, então, o que fazer? Terapia é bom. Mas também vôos rasos, curtos, só para sentir qual é sua autonomia. Que tal passar um tempo na casa de uma irmã? Ou de um amigo? Mesmo que o desempenho não seja muito bom, não desanime. Aprender é o maior capacidade do ser humano. A gente pode ir para a nova casa não sabendo fritar um ovo, sim. Os primeiros podem sair queimadinhos, mas depois a gente aprende, lembra a advogada Sueli Nunes, que saiu de casa aos 30 anos sem saber cozinhar, passar roupa ou limpar banheiro. Em seis meses de tentativas, já rodopiava pelo seu apartamento de lencinho na cabeça como uma borboleta feliz.
Além dos mimos, a sedução e a chantagem emocional dos pais podem gerar um aumento no tempo de estadia dos filhos. Quando eles ameaçam abrir as asas, chega uma passagem de avião para longe. Quando tentam de novo, uma fragilidade súbita de um dos genitores estanca o processo. Mas dá para saber quando é fita ou suborno,garante a dentista paulista Caritas Marcondes, que tentou sair de casa quatro vezes antes de conseguir realizar a proeza. Na verdade, a descoberta da mentira e da manipulação ajuda muito a concretizar a decisão de partir.
E, se você não quiser sair de casa, pergunte-se sinceramente por quê. Pode ser que realmente esse não seja o momento de sair. Por mil motivos que só você tem condições de descobrir. De qualquer forma, o autoconhecimento sempre vai colocar mais luz na situação. Até você conseguir resolvê-la um dia.
Isso posto, boa sorte. Mas antes leia abaixo "A história dos pais" para entender melhor o que passa na cabeça deles.
Demorô!
Planeje sua saída. Sente, faça contas, calcule seus gastos.
Tenha um dinheiro reservado para os primeiros meses.
Visite o apê que possa pagar até encontrar um de que goste.
Converse com quem já saiu e aprenda com suas experiências.
Fale francamente com seus pais e resista às seduções.
Estabeleça um prazo razoável para a saída.
Saiba antes a quem recorrer se precisar de algum dinheiro.
Decidida a questão, alugado o apê, vá em frente.
vTenha um plano B na manga (que não inclua a volta à casa dos pais).
A história dos pais
Lembra aquela vontade de sair de casa, arriscar o pescoço, meter os peitos, enfrentar desafios e cair na estrada com uma calça velha azul e desbotada? Pois é, parece não existir mais. Ou, se existe, não é bem assim. Calça desbotada ainda pode ser, mas hoje a passagem de avião dos filhos tem ida e volta bem definidas, com certeza com o mesmo endereço da hora da partida: a casa dos pais. Passar dificuldades e perrengues, vamos ser sinceros, em nome do quê? Independência? Liberdade? Bens materiais? É o que mais eles têm em casa. Porta do quarto fechada, vale tudo, ou quase tudo, desde que não se acordem os vizinhos ou prejudique a saúde, é claro. Com a vantagem de não ter de pagar pela roupa limpinha, pelo canelone de ricota e, muitas vezes, nem pela conta do celular.
Não há como negar: seus filhos gostam do ninho, da plumagem macia que você deu para eles, que os defende em parte de uma vida mais competitiva, insegura e com um número bem menor de oportunidades do que você próprio teve. Além disso, confesse, é gostoso ver as crianças ainda por perto, mesmo que elas já sejam bem grandinhas. Você se delicia com suas aventuras o namorado, a namorada, aquela viagem maluca nos Andes, as histórias dos amigos, os desafios do início da vida profissional... A presença deles traz vida, frescor, um certo encanto, a juventude que todos nós tanto amamos. Não é para se envergonhar,portanto. Os filhos ficam mais tempo em casa porque a vida mudou. E muito. Em primeiro lugar, ela esticou temos mais tempo para viver e, com isso, as fases da vida também se alongaram. A expectativa de vida hoje no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase 72 anos. Casa-se mais tarde também, um ano a mais, em média, do que quando você era jovem, se estiver na casa dos 50. A adolescência tornou-se compridíssima. No seu tempo, dizia-se que ela ia dos 13 até os 18, vá lá,19 anos. Isto é, um adolescente (teenager, em inglês) estava no período de vida que vai dos thirteen (13) aos nineteen (19). Ao se completarem 20 anos, mudava-se de década e status o adolescente passava a ser um jovem adulto.
A própria lei brasileira considera que, aos 18 anos, uma pessoa já é plenamente responsável por seus atos. Mas certamente não pela sua sobrevivência, como se sabe. Com essa idade, um jovem (da classe média, pelo menos) ainda está no primeiro ou segundo ano da faculdade, com pouquíssimas chances de emprego e auto-suficiência. Também não pensa seriamente em se casar, em ter uma casa e filhos, em se tornar responsável por uma família, condição que atestaria sua maturidade psicológica e autonomia na sociedade. Enfim, é adulto mas naquelas, né?
A adolescência tornou-se tão longa que a psicóloga carioca Tânia Zagury dedicou um livro inteiro, Encurtando a Adolescência, a esse assunto. Hoje, considera-se que a adolescência começa bem antes, já com uns 11 anos e alonga-se até um período indeterminado, que pode ir até a casa dos 20: 22, 23, 24 anos, sabe Deus quando. Essa visão, que vem dos próprios jovens com relação a eles mesmos, foi detectada pelo psicólogo paulista Yves de la Taille, autor do livro Labirintos da Moral, que assina junto com o educador Mário Sérgio Cortella. Diante do olhar estupefato do professor, todos os alunos do quarto ano de psicologia da USP, gente dos seus 23, 24 anos, levantaram a mão quando perguntados se consideravam a si próprios como adolescentes. Acreditam nisso porque certamente não têm autonomia. Podem ter independência na casa dos pais, total liberdade de ir e vir, mas não têm auto-suficiência, diz. Esse é, segundo Yves de la Taille, o grande fator que separa sua geração da de seus filhos: a capacidade de ficar em pé nas próprias pernas vinha mais cedo e era muito desejada. Havia um certo brio em sair de casa, manter-se sozinho, enfrentar a vida para ter independência e vida própria. Esse orgulho vinha do clima cultural vigente: ao sair de casa, rompiam-se as amarras com um sistema familiar duramente contestado e abriam-se caminhos para novas formas de viver em sociedade. Para a turbulenta geração dos anos 60 e 70, independência rimava com honra. Inaugurou- se uma outra época: os ídolos dos jovens passaram a ser os próprios jovens, com sua rebeldia e amor pela liberdade. Antes, os ídolos dos jovens eram seus próprios pais, afirma De la Taille.
Mudança brutal. A juventude, com sua beleza e ímpeto de vida, tornou-se o mais desejado dos bens. Por isso, os filhos de hoje querem permanecer adolescentes até a última ponta. E os pais também. Pensem bem: ter os filhos por perto, como se fossem crianças, pode aumentar, e muito, a ilusão de eterna juventude. E adiar o momento de se reestruturar um casamento, de se perguntar o que realmente gosta de fazer na vida, procurar projetos que incluam a realização pessoal. Reencontrar a própria individualidade, depois de tantos anos se dedicando a ajudar a formar a identidade dos filhos, pode ser um processo doloroso. Além de ser uma maneira inconsciente e engenhosa de não enfrentar a própria idade e, com isso, a proximidade da etapa final da existência (que também se alongou e tornou-se mais prazerosa e criativa, ainda bem).
Sábios são os indianos, que, encerrada a vida produtiva, de exercício profissional e criação de filhos, iniciam outra etapa completamente diferente, consagrada ao autoconhecimento e aperfeiçoamento interior. Fazem retiros, peregrinações espirituais, vão atrás de mestres ou se tornam um deles. Mesmo no Ocidente, onde a procura espiritual não parece ser tão visceral e profunda, muitos pais que soltaram seus filhos para o mundo tiveram a oportunidade de experimentar o que sempre gostariam de fazer e nunca haviam conseguido: viajar, ensaiar uma atividade artística ou literária (pintar, esculpir, tocar um instrumento, escrever), fazer cursos livres, entrar numa nova faculdade para depois, quem sabe, dar aulas ou dedicar-se a uma atividade voluntária. Os pais podem, numa imagem bem prosaica, voltar a comer a coxinha do frango, depois de tantos anos tendo deixado essa parte saborosa para os filhos durante as refeições.
Os 50, 60 e 70 anos, então, podem se tornar um rico período de busca de realização. E por que não? de felicidade. Aos 57 anos, Blanca Suarez, por exemplo, que durante mais de dez anos foi relações-públicas da Maison de la France, órgão oficial do turismo francês no Brasil, abandonou a idéia de continuar nesse ramo de atividade para se dedicar à paixão de sua vida: os animais. Inscreveu- se como voluntária numa ONG,a Arca, que acolhe animais enjeitados, e, por enquanto, não pensa em voltar ao circuito de eventos, festas e viagens. Conquistei o direito de fazer só o que meu coração diz. Mãe de um médico veterinário de 25 anos que tem mais quatro anos de mestrado e doutorado pela frente e que ainda mora em sua casa, ela não esperou para conquistar o espaço próprio. Estou me preparando para quando ele for embora.
Por isso, tranqüilize-se, não é errado ter os filhos por perto, se realmente há necessidade disso e se você não se torna dependente da lufada de oxigênio que eles trazem para casa, tentando segurá-los com mimos ou chantagens emocionais. A história só fica meio esquisita quando não há essa precisão e há um certo comodismo por parte deles, uma espécie de pânico de enfrentar a vida e passar pelas eventuais dificuldades que irão se apresentar no caminho. Porque é claro que será diferente. Essa geração ama o conforto tanto quanto a geração passada gostava da liberdade. Mas o ser humano precisa de riscos e desafios para crescer, afirma Yves de la Taille. Enfim, precisa quebrar a cara às vezes. Filhotes são mesmo para sair do ninho, ainda que isso custe um pouquinho mais.
Você mesmo desempenhou o seu papel nessa mudança rumo a uma vida mais protegida. De peito aberto, sua geração ajudou a destruir convenções, balançar a moral estabelecida e dar uma sacudida geral nas ideologias. Foram derrubados os muros que bloqueavam a estrada e agora seus filhos passeiam por ela sobre asfalto macio. Eles têm mais tempo para aprender, mais abertura para viver e, de certa maneira,muito mais facilidades. Têm, em suma, acesso a informações e experiências quase inimagináveis em seu tempo. Por motivos diferentes (e são muitos, não tenha dúvida), sorte sua por ter vivido sua época. Sorte dos seus filhos por viverem a deles.
Agora, com o coração mais pacificado, leia o que acontece com seus filhos. Leia e reflita. E descubra, nele e em você, se há uma necessidade de mudança.
Chegou a hora?
Lembre-se sempre: seu filho já é um adulto.
Mesmo que não precise, faça questão de que ele ajude em casa.
Estabeleça com nitidez as responsabilidades dele.
Deixe claras as conseqüências do não cumprimento dessas regras.
Se ele pensar em sair, procure ajudá-lo no que for possível.
Não use suas dificuldades para mantê-lo em casa.
Se ele deseja ficar para ajudá-lo por alguma razão, reflita bem.
Procure retomar sua própria individualidade.
Inaugure uma fase de realização de sonhos e busca espiritual.
PARA SABER MAIS
LIVROS
Encurtando a Adolescência, Tânia Zagury, Record
Livro dos Avós, Lidia Aratangy e Leonardo Posternak, Artemeios
Pais que Educam Filhos que Educam Pais, Lidia Aratangy, Celebrist
Fonte: Revista Vida Simples
Então os filhos se tornaram adultos e estão relativamente encaminhados na vida. Porém, nem pensam em sair para ganhar o mundo e acham ótimo ficar com a família (que, por sua vez, também está adorando tê-los sempre à vista). É normal ou será que existe alguma coisa de errado nisso?
É um fenômeno mundial: cada vez mais os filhos prolongam sua estada na casa dos pais, desfrutando de benesses como carinho e apoio quase inesgotáveis, liberdade, a comidinha predileta e outros confortos. Os pais parecem aceitar essa adolescência quase perpétua numa boa e, em muitos casos, estimulam a permanência dos filhos em casa até como uma estratégia para enfrentar o próprio envelhecimento. Mas há muita gente se perguntando se essa realidade é apenas mais uma faceta de um mundo em que os valores estão mudando rapidamente ou se há efetivamente algo de negativo nisso. Por isso, pais e filhos, leiam com carinho esta matéria. E experimentem, nem que seja por alguns momentos, trocar de papel e imaginar o que sente e pensa cada lado dessa história devidamente apresentada para filhos e pais abaixo.
A história dos filhos
A cosquinha que dá vontade de sair de casa já começou? Pode ser até que ela já tenha dado um pouco antes, ao sair da faculdade, aos 22 anos, ou quem sabe quando seus irmãos se casaram e você ficou para trás, aos 25, ou quando um amigo ou amiga o convidou para morar junto, aos 27. Mas parecia muito cedo ainda. Nesses momentos de dúvida, você olhou para seus pais, viu que ainda era muito ligado a eles, que gostava do conforto do seu quarto, que tinha muita liberdade e, principalmente, que a vida lá fora seria dureza. E não saiu. Não precisa se martirizar por isso: saiba que você está em ótima companhia. Filhos que ficam mais tempo em casa, até os 28, 30 ou 32 anos (se não for mais), transformaram-se num fenômeno recente, observado não só na classe média do Brasil como em vários países do mundo é a chamada geração canguru. Na Itália, por exemplo, filhos como você ficaram conhecidos como mammone (palavra que vem de mamma, a soberana mãe italiana que adora ter seus rebentos na barra da saia). Na França, o pessoal anda ficando mais com os pais porque os empregos também estão difíceis por lá. No Brasil, segundo o levantamento feito pelo geógrafo Arlindo Mello para sua tese de mestrado na Escola Nacional de Estatísticas do Rio de Janeiro, 25% por cento dos filhos que ainda moram na casa dos pais na Cidade Maravilhosa têm mais de 30 anos. É gente pra burro. Embora esse universo ainda não seja quantificado com a devida exatidão (segundo o IBGE, os jovens brasileiros que caem na vida mais cedo ainda são a maioria), a dificuldade para sobreviver e as facilidades dadas pelos pais andam conservando muita gente em casa. Portanto, você não é uma exceção isolada: muitas famílias estão mesmo abraçando seus filhos por mais tempo.
O mercado imobiliário, por exemplo, já detectou a mudança. Os enormes apartamentos com quatro suítes e cinco garagens ou os flats que se intercomunicam muitas vezes são vendidos para casais de alta renda com filhos adultos. Os proprietários mais velhos que têm apartamentos grandes não estão se desfazendo mais deles para ir para um menor. Ou os filhos ficaram com eles ou, se saíram, podem voltar, afirma Ely Whertheim, vice-presidente imobiliário do Sindicato das Construtoras de São Paulo (SindusCon-SP).
Fátima Fachin sabe muito bem disso. Aos 28 anos ela viu, abismada, seu pai comprar um apartamento com três suítes quando ela estava prestes a sair de casa para se casar, dois anos depois de sua irmã mais nova. Fátima questionou a decisão. E o pai respondeu na lata: Dou um prazo de carência de cinco anos para o casamento de vocês duas. Se der errado, estou esperando vocês aqui com sua mãe. Se não der, vendo o apartamento, compro um veleiro e vou para a Martinica. A Martinica, para o pai de Fátima, é a imagem de uma utopia, uma Pasárgada. Ele decidiu adiar seu sonho idílico por desconfiar da durabilidade do casamento de hoje e também por achá-las incapazes de sobreviver sozinhas, a partir mesmo de suas escolhas profissionais (música e artes plásticas). Pode ser pragmático, até generoso, mas, puxa, não dá para controlar a vida assim..., diz Fátima.
Luciana Alves Pereira é outra moça de 28 anos que desfrutava de um ambiente e tanto com a família. Filha de pai arquiteto, morava numa casa belíssima de madeira e vidro, fotografada por várias revistas de arquitetura. Mas, no fim do ano passado, começou a sentir que seu prazo de validade por lá já estava expirando. Por ser muito amiga e próxima dos pais, foi duro convencêlos de que queria deixá-los para experimentar a grande aventura da vida independente. Mas o destino ajudou: De repente, vi que se havia formado uma brecha em que eles não precisavam tanto mais de mim. Minha mãe estava bem, meu pai também e minha irmã já estava casada. Se não aproveitasse aquele momento em que tudo fluía, acho que depois ficaria muito difícil. Na sua decisão, está embutida bastante responsabilidade. Saí porque estava ganhando o suficiente para alugar um apartamento de quarto e sala no centro. Não tem sentido viver sozinha e esperar que pai e mãe ajudem a cobrir o cartão de crédito, diz a ajuizada Luciana. Também se sentiu feliz porque não precisou sair de casa por causa de namorado. A gente é de uma geração acostumada a zapear no controle remoto da televisão. Imagine se saísse por causa de alguém e não desse certo. Teria de voltar para casa com um gosto de fracasso na boca, com a sensação de que não conseguia sobreviver sozinha. Mesmo tendo a certeza de que pai e mãe a receberiam de braços abertos.
A história de Luciana mostra que a casa dos pais certamente estará aberta quando você precisar (ufa!). A psicóloga Lidia Aratangy, por exemplo, viu sua filha voltar com duas crianças pequenas após a moça ficar viúva com apenas 30 anos. Garanti que ela teria nosso apoio para o tempo que fosse necessário. No caso dela, isso durou um ano e meio. Mas minha filha sabia que ficar conosco era uma solução provisória, paliativa, afirma a psicóloga. Um tempo até ela poder se arrumar de novo na vida. Mesmo quando saem com menos idade, muitos jovens ainda conservam uma parte do seu ninho com os pais. É o caso do administrador de empresas Paulo Henrique (que pediu para ter o nome trocado nesta reportagem), 25 anos, que responde por um cargo de chefia numa multinacional da indústria química de São Paulo. Aluno brilhante e responsável, veio de Belo Horizonte aos 18 anos para estudar na capital paulista. Seus parcos recursos para se manter, porém, o fizeram morar em todos os ambientes possíveis.
Mesmo no último ano, já formado, trocou oito vezes de endereço, na maioria das vezes nada recomendáveis. É famoso entre os amigos como Mister Pig (ou Senhor Porco), numa alusão à infinidade de muquifos (também conhecidos como cabeça-de-porco) em que teve de morar em São Paulo. Só agora, num bom emprego e ganhando bem, Paulo decidiu se estabelecer. Mas quem vê seu desembaraço e independência como profissional nem desconfia que quase todo fim de semana ele arruma sua malinha e vai para Belo Horizonte para ver seus pais e ter a roupa lavada. De quebra, ainda volta com um a quentinha com aquela comida que só a mamãe sabe fazer.
Então, como você vê, existem dos acomodados aos que só querem uma força da família para cumprir seu projeto de vida. Aliás, essa é a grande pergunta que você deve fazer a si mesmo quando começar a coceirinha de querer sair de casa. Saber qual é seu projeto de vida esclarece a situação. Querer ficar na casa dos pais para fazer um mestrado ou curso de especialização para ter melhores chances no mercado de trabalho é uma coisa. Ficar porque tem certeza de que seu padrão de vida vai abaixar quando começar a pagar suas próprias contas é outra, diz a psicóloga Lidia Aratangy, que aconselha, inclusive, os pais a sentarem com seus filhos e perguntarem bem claramente o que eles pretendem fazer de suas vidas. Autora de livros sobre a relação de pais e filhos, Lidia, que já é avó, perturba-se com a infantilização exagerada dos jovens adultos de hoje. A infantilização começa cedo. Aos 12 anos, por exemplo, os adolescentes de hoje lêem as Aventuras do Capitão Cueca, um livro quase infantil. No meu tempo, a gente lia Erico Verissimo e boa literatura adulta. Isso faz diferença mais tarde, diz Lidia. Uma das razões para isso ocorrer talvez seja o excesso de mimos dos pais, que infantilizam os adolescentes e os deixam pouco tolerantes às frustrações como as crianças. Acontece que uma boa relação com as próprias frustrações é um dos alicerces da maturidade. Nesse caso, então, o que fazer? Terapia é bom. Mas também vôos rasos, curtos, só para sentir qual é sua autonomia. Que tal passar um tempo na casa de uma irmã? Ou de um amigo? Mesmo que o desempenho não seja muito bom, não desanime. Aprender é o maior capacidade do ser humano. A gente pode ir para a nova casa não sabendo fritar um ovo, sim. Os primeiros podem sair queimadinhos, mas depois a gente aprende, lembra a advogada Sueli Nunes, que saiu de casa aos 30 anos sem saber cozinhar, passar roupa ou limpar banheiro. Em seis meses de tentativas, já rodopiava pelo seu apartamento de lencinho na cabeça como uma borboleta feliz.
Além dos mimos, a sedução e a chantagem emocional dos pais podem gerar um aumento no tempo de estadia dos filhos. Quando eles ameaçam abrir as asas, chega uma passagem de avião para longe. Quando tentam de novo, uma fragilidade súbita de um dos genitores estanca o processo. Mas dá para saber quando é fita ou suborno,garante a dentista paulista Caritas Marcondes, que tentou sair de casa quatro vezes antes de conseguir realizar a proeza. Na verdade, a descoberta da mentira e da manipulação ajuda muito a concretizar a decisão de partir.
E, se você não quiser sair de casa, pergunte-se sinceramente por quê. Pode ser que realmente esse não seja o momento de sair. Por mil motivos que só você tem condições de descobrir. De qualquer forma, o autoconhecimento sempre vai colocar mais luz na situação. Até você conseguir resolvê-la um dia.
Isso posto, boa sorte. Mas antes leia abaixo "A história dos pais" para entender melhor o que passa na cabeça deles.
Demorô!
Planeje sua saída. Sente, faça contas, calcule seus gastos.
Tenha um dinheiro reservado para os primeiros meses.
Visite o apê que possa pagar até encontrar um de que goste.
Converse com quem já saiu e aprenda com suas experiências.
Fale francamente com seus pais e resista às seduções.
Estabeleça um prazo razoável para a saída.
Saiba antes a quem recorrer se precisar de algum dinheiro.
Decidida a questão, alugado o apê, vá em frente.
vTenha um plano B na manga (que não inclua a volta à casa dos pais).
A história dos pais
Lembra aquela vontade de sair de casa, arriscar o pescoço, meter os peitos, enfrentar desafios e cair na estrada com uma calça velha azul e desbotada? Pois é, parece não existir mais. Ou, se existe, não é bem assim. Calça desbotada ainda pode ser, mas hoje a passagem de avião dos filhos tem ida e volta bem definidas, com certeza com o mesmo endereço da hora da partida: a casa dos pais. Passar dificuldades e perrengues, vamos ser sinceros, em nome do quê? Independência? Liberdade? Bens materiais? É o que mais eles têm em casa. Porta do quarto fechada, vale tudo, ou quase tudo, desde que não se acordem os vizinhos ou prejudique a saúde, é claro. Com a vantagem de não ter de pagar pela roupa limpinha, pelo canelone de ricota e, muitas vezes, nem pela conta do celular.
Não há como negar: seus filhos gostam do ninho, da plumagem macia que você deu para eles, que os defende em parte de uma vida mais competitiva, insegura e com um número bem menor de oportunidades do que você próprio teve. Além disso, confesse, é gostoso ver as crianças ainda por perto, mesmo que elas já sejam bem grandinhas. Você se delicia com suas aventuras o namorado, a namorada, aquela viagem maluca nos Andes, as histórias dos amigos, os desafios do início da vida profissional... A presença deles traz vida, frescor, um certo encanto, a juventude que todos nós tanto amamos. Não é para se envergonhar,portanto. Os filhos ficam mais tempo em casa porque a vida mudou. E muito. Em primeiro lugar, ela esticou temos mais tempo para viver e, com isso, as fases da vida também se alongaram. A expectativa de vida hoje no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase 72 anos. Casa-se mais tarde também, um ano a mais, em média, do que quando você era jovem, se estiver na casa dos 50. A adolescência tornou-se compridíssima. No seu tempo, dizia-se que ela ia dos 13 até os 18, vá lá,19 anos. Isto é, um adolescente (teenager, em inglês) estava no período de vida que vai dos thirteen (13) aos nineteen (19). Ao se completarem 20 anos, mudava-se de década e status o adolescente passava a ser um jovem adulto.
A própria lei brasileira considera que, aos 18 anos, uma pessoa já é plenamente responsável por seus atos. Mas certamente não pela sua sobrevivência, como se sabe. Com essa idade, um jovem (da classe média, pelo menos) ainda está no primeiro ou segundo ano da faculdade, com pouquíssimas chances de emprego e auto-suficiência. Também não pensa seriamente em se casar, em ter uma casa e filhos, em se tornar responsável por uma família, condição que atestaria sua maturidade psicológica e autonomia na sociedade. Enfim, é adulto mas naquelas, né?
A adolescência tornou-se tão longa que a psicóloga carioca Tânia Zagury dedicou um livro inteiro, Encurtando a Adolescência, a esse assunto. Hoje, considera-se que a adolescência começa bem antes, já com uns 11 anos e alonga-se até um período indeterminado, que pode ir até a casa dos 20: 22, 23, 24 anos, sabe Deus quando. Essa visão, que vem dos próprios jovens com relação a eles mesmos, foi detectada pelo psicólogo paulista Yves de la Taille, autor do livro Labirintos da Moral, que assina junto com o educador Mário Sérgio Cortella. Diante do olhar estupefato do professor, todos os alunos do quarto ano de psicologia da USP, gente dos seus 23, 24 anos, levantaram a mão quando perguntados se consideravam a si próprios como adolescentes. Acreditam nisso porque certamente não têm autonomia. Podem ter independência na casa dos pais, total liberdade de ir e vir, mas não têm auto-suficiência, diz. Esse é, segundo Yves de la Taille, o grande fator que separa sua geração da de seus filhos: a capacidade de ficar em pé nas próprias pernas vinha mais cedo e era muito desejada. Havia um certo brio em sair de casa, manter-se sozinho, enfrentar a vida para ter independência e vida própria. Esse orgulho vinha do clima cultural vigente: ao sair de casa, rompiam-se as amarras com um sistema familiar duramente contestado e abriam-se caminhos para novas formas de viver em sociedade. Para a turbulenta geração dos anos 60 e 70, independência rimava com honra. Inaugurou- se uma outra época: os ídolos dos jovens passaram a ser os próprios jovens, com sua rebeldia e amor pela liberdade. Antes, os ídolos dos jovens eram seus próprios pais, afirma De la Taille.
Mudança brutal. A juventude, com sua beleza e ímpeto de vida, tornou-se o mais desejado dos bens. Por isso, os filhos de hoje querem permanecer adolescentes até a última ponta. E os pais também. Pensem bem: ter os filhos por perto, como se fossem crianças, pode aumentar, e muito, a ilusão de eterna juventude. E adiar o momento de se reestruturar um casamento, de se perguntar o que realmente gosta de fazer na vida, procurar projetos que incluam a realização pessoal. Reencontrar a própria individualidade, depois de tantos anos se dedicando a ajudar a formar a identidade dos filhos, pode ser um processo doloroso. Além de ser uma maneira inconsciente e engenhosa de não enfrentar a própria idade e, com isso, a proximidade da etapa final da existência (que também se alongou e tornou-se mais prazerosa e criativa, ainda bem).
Sábios são os indianos, que, encerrada a vida produtiva, de exercício profissional e criação de filhos, iniciam outra etapa completamente diferente, consagrada ao autoconhecimento e aperfeiçoamento interior. Fazem retiros, peregrinações espirituais, vão atrás de mestres ou se tornam um deles. Mesmo no Ocidente, onde a procura espiritual não parece ser tão visceral e profunda, muitos pais que soltaram seus filhos para o mundo tiveram a oportunidade de experimentar o que sempre gostariam de fazer e nunca haviam conseguido: viajar, ensaiar uma atividade artística ou literária (pintar, esculpir, tocar um instrumento, escrever), fazer cursos livres, entrar numa nova faculdade para depois, quem sabe, dar aulas ou dedicar-se a uma atividade voluntária. Os pais podem, numa imagem bem prosaica, voltar a comer a coxinha do frango, depois de tantos anos tendo deixado essa parte saborosa para os filhos durante as refeições.
Os 50, 60 e 70 anos, então, podem se tornar um rico período de busca de realização. E por que não? de felicidade. Aos 57 anos, Blanca Suarez, por exemplo, que durante mais de dez anos foi relações-públicas da Maison de la France, órgão oficial do turismo francês no Brasil, abandonou a idéia de continuar nesse ramo de atividade para se dedicar à paixão de sua vida: os animais. Inscreveu- se como voluntária numa ONG,a Arca, que acolhe animais enjeitados, e, por enquanto, não pensa em voltar ao circuito de eventos, festas e viagens. Conquistei o direito de fazer só o que meu coração diz. Mãe de um médico veterinário de 25 anos que tem mais quatro anos de mestrado e doutorado pela frente e que ainda mora em sua casa, ela não esperou para conquistar o espaço próprio. Estou me preparando para quando ele for embora.
Por isso, tranqüilize-se, não é errado ter os filhos por perto, se realmente há necessidade disso e se você não se torna dependente da lufada de oxigênio que eles trazem para casa, tentando segurá-los com mimos ou chantagens emocionais. A história só fica meio esquisita quando não há essa precisão e há um certo comodismo por parte deles, uma espécie de pânico de enfrentar a vida e passar pelas eventuais dificuldades que irão se apresentar no caminho. Porque é claro que será diferente. Essa geração ama o conforto tanto quanto a geração passada gostava da liberdade. Mas o ser humano precisa de riscos e desafios para crescer, afirma Yves de la Taille. Enfim, precisa quebrar a cara às vezes. Filhotes são mesmo para sair do ninho, ainda que isso custe um pouquinho mais.
Você mesmo desempenhou o seu papel nessa mudança rumo a uma vida mais protegida. De peito aberto, sua geração ajudou a destruir convenções, balançar a moral estabelecida e dar uma sacudida geral nas ideologias. Foram derrubados os muros que bloqueavam a estrada e agora seus filhos passeiam por ela sobre asfalto macio. Eles têm mais tempo para aprender, mais abertura para viver e, de certa maneira,muito mais facilidades. Têm, em suma, acesso a informações e experiências quase inimagináveis em seu tempo. Por motivos diferentes (e são muitos, não tenha dúvida), sorte sua por ter vivido sua época. Sorte dos seus filhos por viverem a deles.
Agora, com o coração mais pacificado, leia o que acontece com seus filhos. Leia e reflita. E descubra, nele e em você, se há uma necessidade de mudança.
Chegou a hora?
Lembre-se sempre: seu filho já é um adulto.
Mesmo que não precise, faça questão de que ele ajude em casa.
Estabeleça com nitidez as responsabilidades dele.
Deixe claras as conseqüências do não cumprimento dessas regras.
Se ele pensar em sair, procure ajudá-lo no que for possível.
Não use suas dificuldades para mantê-lo em casa.
Se ele deseja ficar para ajudá-lo por alguma razão, reflita bem.
Procure retomar sua própria individualidade.
Inaugure uma fase de realização de sonhos e busca espiritual.
PARA SABER MAIS
LIVROS
Encurtando a Adolescência, Tânia Zagury, Record
Livro dos Avós, Lidia Aratangy e Leonardo Posternak, Artemeios
Pais que Educam Filhos que Educam Pais, Lidia Aratangy, Celebrist
Fonte: Revista Vida Simples
quarta-feira, 3 de março de 2010
Aula 27 de Fevereiro
Aula_Sala 509
Na Aula Passada
Produção do Texto da Aespe em Equipe
Texto Análise: Ficar em Casa ou Romper a Casca
Na Aula de Hoje
Café da Manhã_Reunião de Pauta
Finalização do Perfil da Empresa
Escolha do Nome da Empresa
Na Aula Passada
Produção do Texto da Aespe em Equipe
Texto Análise: Ficar em Casa ou Romper a Casca
Na Aula de Hoje
Café da Manhã_Reunião de Pauta
Finalização do Perfil da Empresa
Escolha do Nome da Empresa
Assinar:
Postagens (Atom)





